2 Maio, 2016
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28 Junho, 2005 Ricardo Vargas

Somos um país de agricultores

In Prémio

Portugal evoluiu de sociedade agrícola para sociedade de serviços, do sector primário para o terciário, em pouco mais de meio século. Foi a transição mais rápida da história da economia mundial, que teve além dessa uma outra característica: passar “ao lado” do sector secundário.

 

 

 

 

Nunca fomos uma sociedade verdadeiramente industrializada, embora tenhamos indústrias importantes. A proliferação de pequenas indústrias em sectores específicos não constituiu um enraizamento social de novidades importantes em tecnologia, métodos de produção, conceitos e atitudes perante o trabalho. Antes foi um aproveitar de oportunidades de negócio a curto ou médio prazo para capitalização dos seus proprietários, sem transformação da cultura de trabalho da sociedade em que se inseriu, que se manteve baseada na baixa qualificação e salário a condizer.

 

O principal problema desta transição é que a indústria representa um corte importante com a agricultura para o ganho de valores indispensáveis à competitividade, que ficou por fazer. Portugal continua a ser fundamentalmente uma sociedade de agricultores, se não já do ponto de vista produtivo, pelo menos do mental.

 

Os agricultores vivem ao ritmo da Natureza. Cumprem os desígnios das estações. Semeiam quando têm que semear, colhem quando devem colher. Não há muito que possam fazer para amadurecer as suas culturas, que devem ser tratadas de acordo com um calendário que lhes é imposto. Esperam a clemência da Natureza e aceitam a sua inclemência com resignação.

 

A indústria funciona na cadência da produção, da manutenção, no ritmo das necessidades do cliente. Não há uma velocidade única a ser obedecida, como na agricultura, há velocidades variáveis a estabelecer consoante a procura do mercado.

 

Os serviços funcionam ao ritmo frenético da antecipação. Ganha quem chegar primeiro ao mercado, quem melhor satisfizer as novas necessidades dos clientes, quem melhor as souber criar, inovando.

 

O que é valorizado em cada sector é diferente. Enquanto na agricultura os valores principais são: tradição (“o modo como as coisas se fazem”), conhecimento adquirido (interpretação dos ciclos da natureza e das suas leis), paciência (para dar tempo ao tempo que desenvolve e amadurece as colheitas), e aceitação (das forças da natureza, maiores que nós); na indústria são: excelência, rapidez, melhoria contínua, competência técnica, planeamento, inovação e eficiência. Por outro lado, a adequação a uma sociedade de serviços exige que se valorize: inovação, antecipação, criatividade, comunicação e informação.

 

É fácil ver que, sem passar pela aculturação provocada pela vivência da indústria, há um conjunto de valores que não estão estabelecidos na nossa sociedade para que esta se baseie na prestação de serviços como modo de vida.

 

Tentamos sobreviver numa economia globalizada competindo com formas de pensar agrícolas. Acreditamos que existem ritmos, padrões de trabalho externamente determinados que possam ser cumpridos e que garantam o resultado. Não entendemos que somos nós (cada um de nós) a determinar os padrões, os ritmos; que a antecipação é a essência do negócio em serviços; que a criatividade e a competência técnica permitem evitar a inclemência dos “ciclos económicos da Natureza”; que a paciência não é uma virtude, mas um erro; que o conhecimento adquirido não deve ser reverenciado mas contestado; que transformar e recriar são mais importantes que aceitar e adaptar; que a informação não existe se não for comunicada.

 

As empresas são um dos factores mais importantes na formatação da cultura de uma sociedade. O desenvolvimento de métodos e tecnologias de produção, conceitos e atitudes de trabalho, é uma forma de educação que tem sido negligenciada por empresários (com fantásticas excepções) e políticos portugueses. A incapacidade destes potenciais agentes de transformação entenderem as variáveis da cultura empresarial e social está a ter um preço elevado para as empresas e para o país.

 

Num momento em que tanto se fala de ética empresarial, e em que a maioria das pessoas a confunde com o folclore dos programas de responsabilidade social, dos códigos de ética, da filantropia e da caridade, aprender o que significa de facto criar uma ética e uma cultura novas no tecido empresarial português, e aprender como fazê lo, é indispensável ao sucesso de todos e de cada um de nós, agricultores.

 

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