6 Janeiro, 2020
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21 Outubro, 2020 Ricardo Vargas

Sobre a Natureza do Tempo

 

“O tempo passa, mas eu espero por ti”
Lao Tse

 

Existem dois tempos diferentes: o tempo fragmentado e o tempo contínuo. Um é medido em unidade: horas, dias, minutos, segundos. O outro é inferido nas ligações que estabelece entre acontecimentos: o nascimento e a morte, a sementeira e a colheita, o Inverno e a Primavera.

 

 

 

O tempo fragmentado é o tempo da duração, dos limites mínimos e máximos, do controlo e da decisão – o tempo cronológico. Para decidir precisamos de saber quanto tempo temos, em quanto tempo os resultados aparecerão, quando estaremos prontos. Precisamos de dividir as acções no tempo e estabelecer prazos.

 

 

O tempo contínuo é o fio condutor de actividades ou acontecimentos que de outra forma seriam vistos como desconexos. É um tempo de oportunidade, porque novos acontecimentos estabelecem novas possibilidades de interpretação do que aconteceu no passado. Sem que me tivesse apercebido, uma semente caída no chão germinou e produziu uma nova planta. Um acontecimento anódino, cuja ocorrência eu infiro a partir da planta, pode a ela ser ligado inequivocamente por uma linha temporal contínua.

 

Em cada um de nós habita a percepção destes dois tempos.

 

Todos nós medimos o tempo em unidades estanques, procurando extrair de cada uma o máximo de prazer, trabalho, qualidade, vendas… Fazendo a contabilidade do tempo de que dispomos.

 

Todos nós nos apercebemos da linha temporal que nos liga ao que fomos, que liga os resultados de hoje às acções de ontem, que liga o gesto ao seu efeito. É um tempo que não pode ser dividido e subdividido sem perder a sua essência: o significado dos acontecimentos que liga. É um tempo sem dimensão.

 

O atleta de competição corre no tempo cronológico do cronómetro para ganhar a corrida, bater o recorde, ser campeão. Mas corre também no tempo permanente da preparação e do treino, o tempo biológico da condição física, uno.

 

Nenhum dos tempos anula o outro. Vivemos em dois tempos simultaneamente.

 

As actividades de rotina, as urgências, as interrupções, o cumprimento de tarefas programadas acontecem no tempo fragmentado. A estratégia, as relações, o desenvolvimento pessoal, a visão do futuro, acontecem no tempo contínuo. Mas estes dois tempos interpenetram-se, cruzam-se e complexificam a nossa percepção.

 

Desperdiçamos o tempo contínuo quando escolhemos reagir a urgências pontuais, aumentando o curso do tempo entre o início de algo e o seu resultado. Desperdiçamos o tempo cronológico quando escolhemos não realizar tarefas importantes, diminuindo o resultado que poderíamos obter nessa unidade de tempo.

 

O tempo contínuo contém o tempo cronológico. Mas não pode ser confundido com a soma das suas unidades.

 

A nossa relação com alguém não é melhor explicada por incluir o tempo que gastamos em conjunto na deslocação para o trabalho. A realização da Visão da empresa não é melhor explicada com a inclusão de parcelas do tempo de pausa dos seus colaboradores. O tempo contínuo ganha uma especificidade para além dos componentes de tempo cronológico.

 

A gestão acontece no tempo fragmentado. A liderança acontece no tempo contínuo.

 

Ao gestor é pedido que divida as tarefas pelas unidades de tempo, e que extraia o máximo proveito possível do tempo da equipa. Ao líder é pedido que estabeleça a ponte entre o passado e o futuro, dando um significado aos acontecimentos do presente.

 

Para ser gestor é preciso dominar o tempo fragmentado. Para ser líder é preciso entender o tempo contínuo.

 

Dominar o tempo fragmentado significa decidir correctamente em que actividade gastar cada unidade de medida. Estamos a fazer as coisas certas? Estas porções de tempo foram bem utilizadas?

 

Entender o tempo contínuo significa escolher adequadamente o significado para cada acontecimento, abrindo possibilidades, em vez de as encerrar. O que significa este acontecimento à luz da estratégia da empresa? Que possibilidades abre este contacto na relação que tenho com estas pessoas? Como entender a influência do sucesso ou insucesso de um determinado projecto no meu desenvolvimento pessoal?

Tornamo-nos quem somos no tempo fragmentado. Descobrimos quem somos no tempo contínuo.

 

Somamos realizações e fracassos, acções e inac-ções, resultados e decisões, no tempo fragmentado. Sem tudo isso não poderíamos ser o que somos hoje. É por termos o passado que temos que podemos ser o que somos.

 

Mas o que somos hoje começa apenas onde a vista alcança, quando olhamos para trás. O início de algo só é definitivo quando esse algo termina. Novos acontecimentos redefinem constantemente o passado, reinterpretando-o. Onde uma planta inesperada surge eu identifico um início até então inexistente para mim.

 

No tempo fragmentado, o passado define o presente. No tempo contínuo, o presente interpreta o passado.

 

Não podemos tornar-nos quem queremos ser se não realizarmos hoje as acções adequadas para o conseguir. Mas nunca seremos quem queremos ser se não identificarmos essa pessoa nas acções que realizámos no passado.

 

Aquilo a que chamamos tempo contínuo não passa da percepção da sucessão ininterrupta de acontecimentos, que sentimos necessidade de ligar entre si. Aquilo a que chamamos tempo fragmentado não passa da percepção de medidas externas, naturais ou artificiais, para o momento em que existimos.

 

Nenhum tempo existe, só a sua percepção. E esta são duas.

 

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