22 Julho, 2020
Posted in Imprensa
28 Setembro, 2009 Ricardo Vargas

Segurança ou dignidade?

In Executive Digest

No que concerne ao trabalho, se tiver de escolher, o português prefere a segurança à dignidade.

 

Só isso explica que uma multidão de pessoas se arraste por empregos sem futuro nem presente, cumprindo ordens arbitrárias de chefes mal formados e pior intencionados, que desrespeitam os mais básicos princípios de educação e faltam ao respeito aos colaboradores. Só assim se entende que tantas pessoas abdiquem do seu desenvolvimento profissional e dos seus sonhos de futuro, enquanto as migalhas vão dando.

 

 

 

 

O português aceita facilmente ser capacho desde que isso lhe permita viver com alguma segurança. O que na prática significa poder assumir dívidas.

 

Desde crianças somos massacrados com certezas absolutas. “Se puderes escolher vai para funcionário público. O Estado é mais seguro.” “Não é grande coisa, mas pelo menos ficas efectivo.” “Tens de arranjar uma coisa estável.” “Não troques o certo pelo incerto.”

 

Até uma ideia estúpida, se ouvida vezes suficientes começa a parecer normal. Sobretudo se for repetida por muitas pessoas.

 

Claro que este dilema não se coloca conscientemente. A maioria das pessoas, quando tem noção do frete que faz a suportar maus tratos dentro da empresa, limita-se a encolher os ombros e a dizer: “preciso do dinheiro”. Claro, toda a gente precisa do dinheiro. Somos um país pobre. E a pobreza fomenta a obediência e a subserviência. Sobretudo a pobreza intelectual, que na era do conhecimento em que vivemos é a maior causa da pobreza económica.

 

A questão não é precisar de dinheiro, mas antes o que estamos dispostos a fazer para o ter. Algumas pessoas vendem o corpo para ganhar a vida. Chamamos a isso prostituição. Outras vendem a alma. Já nem falo de abdicar dos sonhos de um trabalho que nos realize. Falo de ser respeitado enquanto profissional. De ver o direito à dignidade reconhecido pela empresa onde se trabalha. O que chamar a isso?

 

Um bom trabalho é o que nos leva a ser melhores profissionais, que exige de nós cada vez mais competências e nos dá a formação para o realizar, que melhora a nossa empregabilidade e aumenta as opções de futuro. Na ausência disso, ser gerido de forma profissional é o mínimo a exigir. O que é que isto tem a ver com segurança?

 

Está na hora de preferir empresas que saibam gerir bem os seus empregados, com gestores que não olhem para as pessoas como custos, mas sim como pessoas. Mesmo que paguem menos ou ofereçam pouca “estabilidade”. Só quando sistematicamente o fizermos conseguimos forçar a mudança de mentalidade dos empresários. Porque as empresas que pior gerem os seus colaboradores ficarão com os piores profissionais, serão menos competitivas e sairão do mercado. A mentalidade dos empregadores só muda quando mudar a dos empregados. O respeito não se pede, conquista-se.

 

O problema é que de cada vez que um bom profissional confronta a empresa e opta por sair há três capachos para ocupar o seu lugar. E alguns deles até são competentes. Não admira que tenhamos uma das maiores taxas de fuga de cérebros da OCDE. O ambiente é demasiado adverso para quem é competente e não quer ser capacho.

 

O medo atávico da incerteza faz-nos perder flexibilidade e adaptabilidade. A segurança é um conceito abstracto que pouco tem a ver com a vida real. Basta ver as falências de empresas grandes para acordar.

 

A segurança possível reside na competência de cada um. É construída por escolhas que promovem o desenvolvimento profissional, mesmo que sejam temporárias. A segurança dada pelo patrão também pode ser tirada por ele. Ou pelo ditador mercado.

 

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