5 Julho, 2009
Posted in Imprensa
25 Agosto, 2020 Ricardo Vargas

Os animais sabem o que há para saber

In Executive Digest

Os filmes subaquáticos mostram vezes sem conta esta imagem: um cardume nada tranquilamente, como uma nuvem compacta, e de repente surge um tubarão, que tenta comer alguns peixes investindo directamente para o seu centro. Como que obedecendo a uma vontade única abre-se um túnel perante todos os movimentos do tubarão, qualquer que seja a direcção que tome. Atravessa o cardume que se fecha atrás dele, sem conseguir uma só presa.

 

 

 

 

No meio de um cardume compacto, a maioria dos peixes não tem sequer tempo de ver o tubarão antes de agir, já que ele está oculto pelos corpos dos companheiros mais próximos. Esperar pelas informações: Onde está o tubarão? Em que direcção se movimenta? Com que velocidade? para agir, pode revelar-se uma má estratégia. Então como se verifica o fenómeno que acabei de descrever, em que os peixes se movem de forma tão organizada que parecem um só organismo?

 

Quando os animais pertencem a uma organização complexa, verifica-se um ajustamento do comportamento individual com base em regras seguidas por todos. Em vez de cada um decidir por si como agir, perante uma dada situação, limita-se a aplicar as normas em vigor no grupo. Estas são, em geral, surpreendentemente simples e eficazes.

 

Para sobreviver a um ataque, o cardume não pode desagregar-se, mas também não pode manter-se estático. Cada peixe deve orientar o seu comportamento pelos que estão imediatamente ao seu redor, gerindo a direcção e velocidade do seu movimento pelo deles, de forma automática, sem hesitar.

 

Se cada peixe esperasse a instrução do líder do cardume antes de agir, como acontece em muitas organizações humanas, o tubarão teria um festim enorme e o cardume desapareceria. Assim, mesmo que algum deles seja apanhado pelo predador, a organização do cardume como um todo não será afectada.

 

O ajustamento automático e inconsciente do comportamento individual pelas normas vigentes no grupo é uma forma de conseguir organizações complexas com flexibilidade para se ajustarem rapidamente em contextos dinâmicos e hostis.

 

Não tendo inventado a burocracia, as organizações animais são, em muitos aspectos, mais eficientes. Imitar o comportamento alheio e fazer o que o grupo espera de cada um parecem ser as regras mais simples de funcionamento no reino animal. Os seres humanos também funcionam assim, embora nem sempre da forma mais evidente.

 

No que diz respeito às empresas, o ajustamento automático do comportamento pelo dos outros também existe. No entanto o seu resultado pode ser bom ou pode ser mau. Depende se o comportamento esperado é ou não adequado à sobrevivência e prosperidade da organização como um todo.

 

Nas organizações humanas existem diferentes registos de normas do grupo, além de, em geral, existirem também vários grupos em cada organização. Assim, as normas explícitas, “o que declaradamente deve ser feito”, são comparadas com as normas tácitas, “o que de acordo com a tradição deve ser feito”, de cada grupo existente na empresa.

 

Estes dois registos de normas nem sempre convergem nos, e entre os, diferentes grupos que compõem a empresa. A tomada de decisão e acção revelam-se por isso de grande complexidade, morosidade e, em muitos casos, fonte de conflito.

 

Os sistemas de normas tácitas que regem as organizações humanas são constituídos por hábitos adquiridos, padrões de comportamentos complexos, que se baseiam em valores, morais e éticas próprias.

 

A existência de um núcleo de valores partilhados num dado grupo ou organização é o que explica que os seus membros ajustem individualmente o comportamento em relação ao que é desejado pelo global do grupo. Fazemos o que os outros esperam de nós porque isso está de acordo com a nossa maneira de entender o mundo, porque é o que achamos que está certo. Por outras palavras, ajustamos o comportamento à moral do grupo porque a aceitamos como nossa.

 

Nas conferências e palestras que dou perguntam-me por vezes: “Porque hei-de ter um comportamento ético exemplar se a minha concorrência não o tem e eu fico por isso prejudicado?” A resposta é simples: não é por alguém ser roubado que justifica que roube. Se assim fosse, não haveria já ninguém honesto no mundo…

Artigo originalmente publicado a 10 de Agosto de 2006.

 

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