1 Outubro, 2013
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25 Junho, 2020 Ricardo Vargas

O manhoso, o capacho e o poder

In Executive Digest

O poder decidiu que o acesso a ele não poderia ser feito de forma directa e clara. Nada de percursos baseados na competência, no mérito ou na escolha isenta. Nada de concursos, informação disponível ou igualdade de critérios.

 

 

 

Quando isto se soube, o capacho e o manhoso deliraram, pois viram a oportunidade de passar à frente de todas as pessoas melhor qualificadas do que eles sem provocar polémica.

 

O capacho é papel do seu senhor. Submete-se para que ele molde, decida, escreva e reescreva vezes sem conta a seu belo prazer. Ter um capacho é útil e o capacho sabe-o. Os mais pequenos caprichos do seu senhor são para implementar, as maiores arbitrariedades devem ser cometidas em nome dele. Capacho assina aqui, capacho intervém ali, capacho faz sem perguntar, capacho cumpre sem pensar. Duas mãos voluntariosas e ausência de coluna vertebral são as características típicas do capacho.

 

O sonho de todo o capacho é um dia ser poderoso, mas sabe que esperar é uma virtude. Em troca de não brilhar, de creditar o seu trabalho ao dono, o capacho acaba por ser favorecido e ir subindo.

 

Há muitos déspotas que um dia foram capachos. É exactamente esse passado humilhante que querem apagar com a acção enérgica de submeter os outros. Todos os capachos têm um déspota potencial dentro deles, já que a única relação de poder que conhecem é a submissão. Acreditam que para deixar de ser capacho é preciso ter capachos.

 

Há capachos por necessidade e por convicção. Os primeiros, coitados, têm um défice de competências que jamais lhes permitiria brilhar por si, ocupar um lugar central em qualquer ribalta. Têm inveja de qualquer mortal com mais valor que eles. Os capachos por convicção são pessoas que até poderiam ser competentes, mas que por insegurança, educação ou desistência acreditam que ser capacho de alguém é a única forma de ascender na carreira.

 

Nisso estão errados porque existe também a estratégia da manha.

 

O manhoso é o rei da sombra. Conhece todos os meios para atingir os seus fins e não exclui nenhum. Quanto melhor é o seu jogo, mais invisível é o manhoso. Escorregadio como ninguém, nunca sabemos quem ele é, a não ser que cometa erros.

 

O sonho do manhoso não é estar na ribalta, ser um poderoso visível. Pelo contrário, ele desdenha a ostentação porque sabe que ela o expõe ao escrutínio público. O passado de um manhoso é um cortejo de imundícies que não lhe interessa desvendar, pelo que ele prefere controlar o jogo a partir da sombra. É isto que lhe permite margem de manobra para sobreviver ao fiasco de algumas das suas jogadas.

 

Quando as suas pequenas traições ou grandes corrupções são descobertas, ele volta atrás, dá o dito por não dito, berra como virgem ofendida, pede provas, denuncia calúnias, manobra a lei, compra decisores e sai ileso. Chamuscado em inúmeras situações, agarra-se ao poder sem ficar definitivamente queimado. Mesmo quando todos os indícios apontam para ele, ninguém o consegue incriminar e punir.

 

O bom manhoso tem mais que sete vidas, porque manipula as vidas dos outros. É hábil a utilizar os capachos como testas-de-ferro.

 

É criativo a desenhar enredos e conspirações. É sedutor a envolver pessoas nas suas jogadas. É um actor exímio nos momentos cruciais e mente com enorme seriedade. Com o capacho partilha a indiferença em relação ao que os outros pensam dele. A vergonha é um atributo ausente da cara do manhoso.

 

Enquanto o mérito não chegar ao poder, o manhoso e o capacho mandam no jogo. Felizmente temos um clima ameno.

 

Artigo orginalmente publicado a 28 de Agosto de 2008.

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