22 Agosto, 2017
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28 Maio, 2020 Ricardo Vargas

Cro-Magnon 1, Neanderthal 0

In Executive Digest

O europeu moderno, em termos genéticos, ficou conhecido como Homem de Cro-Magnon, por os seus restos terem sido primeiro encontrados na região francesa com o mesmo nome. Saiu de África há oitenta mil anos e demorou cerca de dez mil anos a povoar todo o mundo, numa lenta migração de cinquenta mil gerações. Quando chegou à Europa encontrou um continente dominado por outra espécie, mais corpulenta e adaptada ao frio, que o habitava e explorava os seus recursos – o Homem de Neanderthal.

 

 

 

 

As semelhanças entre os dois eram muitas, de tal forma que durante muito tempo se julgou ser o Neanderthal um antepassado do homem moderno. A ciência acabou por demonstrar que foram espécies diferentes, que coabitaram o mesmo espaço durante um período de dez mil anos, até que o Neanderthal se extinguiu.

 

Dificilmente saberemos se essa extinção foi provocada por caça directa promovida pelo Cro-Magnon, ou simplesmente pela competição por recursos. A relação entre os dois foi certamente complexa, dependente de múltiplos factores, como a geografia e a abundância de recursos. Achados recentes parecem demonstrar que, em alguns locais, chegou a haver, pelo menos, a vivência em comunidades muito próximas.

 

O que não deixa dúvidas é o preparo de cada uma das espécies para sobreviver. Enquanto o indivíduo Neanderthal confiava no seu corpo para interagir com o contexto, apoiando-se na enorme força física para estabelecer relações com a comunidade, com as outras espécies e com a ecologia, o Homem Moderno, fisicamente mais frágil, desenvolveu uma cultura para interagir com o contexto.

 

Criou artefactos, contas, adornos, que lhe permitiam regular a pertença e a hierarquia social. Esculpiu pequenas esculturas que lhe permitiam representar animais, estabelecer estratégias e ensinar a caçar, na ausência física dos animais. Desenvolveu a tecnologia do osso, para armas de arremesso, mais leve e precisa que a tecnologia de pedra do Neanderthal. Desenvolveu agulhas para coser roupa, permitindo-lhe melhor se adaptar ao clima e abrindo possibilidades de representação da hierarquia social.

 

Em duzentos mil anos de existência a tecnologia Neanderthal não se alterou. Não tendo uma cultura, apenas conseguia transmitir os seus conhecimentos por observação directa do exemplo, por tentativa e erro. Cada nova geração deveria repetir as mesmas descobertas feitas mil vezes antes, cometer os mesmos erros e reinventar a pouca tecnologia disponível. Fortes e um pouco mais inteligentes que os restantes animais, isso foi suficiente durante milhares de anos.

 

A cultura Cro-Magnon permitiu-nos sistematizar a informação, criar uma linguagem, comunicá-la a grande distância, aprender com a informação comunicada, desenvolver a arte, criar nova tecnologia, elaborar rituais e estabelecer relações sociais fora do clã.

 

Foi este relacionamento progressivamente mais alargado que permitiu uma aprendizagem maior e mais rápida, por complexificação das sociedades, e que deu origem a um novo universo de possibilidades. Cada geração construiu em cima dos conhecimentos e tecnologia da geração anterior, num movimento de avanço constante até hoje.

 

Podemos caracterizar a práxis Neanderthal como:

  • Baseada no exercício directo do poder físico
  • Dependente do exemplo e da observação directa
  • Limitada pela tradição
  • Empírica, baseada na experiência
  • Fechada no seu grupo de referência
  • Pouco elaborada, pouco complexa
  • Com baixo nível de interacção
  • Não intencional, sem gestão específica
  • Um subproduto da actividade quotidiana

 

Podemos caracterizar a cultura Cro-Magnon como:

  • Baseada na representação social do poder
  • Dependente da comunicação e da linguagem
  • Construída sobre a tradição, alargando-a
  • Transmitida, baseada no conhecimento
  • Aberta a outros grupos de referência
  • Elaborada, de complexidade crescente
  • Com elevado nível de interacção
  • Intencional, com meios de gestão específicos
  • Uma fonte de tecnologia e processos novos na actividade quotidiana

 

É interessante como encontramos ainda em tantas empresas a representação metafórica da ética Neanderthal, com as características que referi.

 

Gerir deliberadamente a cultura empresarial exige uma capacidade de decisão e gestão que assusta a maioria dos executivos. Por isso preferem continuar a usar as estafadas soluções de sempre do que arriscar-se a abrir caminho novo.

 

Abusando um pouco da metáfora, convém não esquecer que, independentemente da forma exacta como aconteceu, foi a presença do Homem Moderno, competindo no mesmo ambiente, com uma cultura sistematizada, que levou à extinção do Neanderthal.

Artigo originalmente publico a 28 de outubro de 2006

 

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