21 Agosto, 2017
Posted in Entrevistas
11 Maio, 2020 Ricardo Vargas

Crise e Gestão de pessoas

In Ferreira Lopes, Luís. Seja mais esperto do que a crise: Estratégias para organizar as suas finanças (1ª edição). Lisboa, A esfera dos livros.

A crise não é igual para todos

 

A palavra crise gera em quem a utiliza uma imagem mental totalmente negativa. Mas a realidade não é assim tão simples.

 

A crise pode ser benéfica para algumas empresas e fatal para outras. Como sempre acontece em momentos difíceis, as empresas melhor preparadas vão sair fortalecidas da crise enquanto as empresas pior preparadas talvez não sobrevivam a ela.

 

O grau de resistência de uma empresa à crise depende da sua condição financeira, mas esta depende de um conjunto de decisões de gestão tomadas no passado. Do ponto de vista da gestão, crise significa que há menos margem para cometer erros. Numa crise temos menos pessoas, menos tempo e menos dinheiro para recuperar de más decisões.

 

 

 

 

Algumas decisões de gestão de pessoas que podem ajudar a sua empresa a sair das dificuldades com a cabeça erguida são:

 

1. Assuma a responsabilidade

 

Liderar é uma responsabilidade. Todos esperam de si uma indicação clara sobre qual é a situação real da empresa, qual é a estratégia para atravessar a crise, como é que as vidas das pessoas serão afectadas, o que vai mudar e o que vai permanecer na mesma.

 

Assuma a sua responsabilidade. Defina uma estratégia e comunique-a. Mesmo que tenha de ser ajustada várias vezes, é melhor do que a ausência de informação. Mesmo que seja uma estratégia dolorosa é melhor do que a ausência de informação.

 

Lidere. Agora ou nunca.

 

2. Aumente o seu capital de confiança

 

A confiança é indispensável para ultrapassar momentos difíceis. Os colaboradores precisam de confiar que a gestão é capaz de gerar respostas à altura da situação. A gestão precisa de confiar que os colaboradores são capazes de implementar a estratégia adequada com competência e flexibilidade. E as chefias intermédias precisam de confiar que quem está acima e abaixo não impossibilita o equilíbrio entre os objectivos e a capacidade real das equipas.

 

A confiança é o oxigénio da empresa em momentos de crise. Sem ela qualquer empresa sufoca. A forma como se gere pessoas é fundamental para gerar confiança. Exerça a gestão da sua equipa com equidade no tratamento entre pessoas. Tenha critérios claros e conhecidos por todos. Seja justo nas suas decisões e explique-as. Dê o exemplo dos comportamentos que deseja ver nos seus colaboradores. Não beneficie pessoas preferidas em detrimento de bons profissionais.

 

3. Despeça bem

 

Despedir para reduzir custos é uma estratégia comum nas empresas de mão-de-obra intensiva com poucas qualificações e nas empresas cotadas que apresentam resultados ao trimestre. Se a sua empresa não se enquadra nestas opções, o despedimento deve ser avaliado como estratégia de último recurso.

 

Embora no curto prazo possa haver um alívio financeiro, por vezes os custos a médio prazo são maiores, porque a empresa gasta mais a contratar e formar colaboradores para as mesmas funções alguns meses mais tarde. Faça bem as contas para saber se vale a pena.

 

Em empresas que vivem de conhecimento, despedir pode ser uma estratégia suicidária, porque corta capacidade produtiva. Depois de anos investidos a desenvolver pessoas oferecemo-las à concorrência.

 

Em qualquer caso, despedir tem um impacto na produtividade dos colaboradores que ficam, que depende muito do significado que eles atribuem aos despedimentos. Estas decisões devem ser bem comunicadas para não gerar mais problemas do que os que resolvem.

 

4. Renove competências

 

Caso tenha de reduzir o número de colaboradores, tenha a certeza de que despede as pessoas certas.

 

Saiba quais são as competências fundamentais para realizar a Missão e fazer prosperar o seu negócio. Avalie as pessoas objectivamente e liberte as que não têm as competências necessárias. Não fique com pessoas inadequadas ao perfil estratégico de competências só porque são mais difíceis de despedir.

 

Identifique áreas de competências em que a sua empresa é deficitária e aproveite para recrutar bons profissionais que se encontrem no mercado. O momento é oportuno para garantir que a sua equipa integra os colaboradores certos para ganhar o jogo.

 

5. Faça upgrade do software mental da empresa

 

Crie uma cultura de competitividade na empresa fomentando atitudes positivas nos seus colaboradores.

 

Responsabilidade, iniciativa, orientação para resultados, orientação para o cliente, rigor no trabalho, auto-confiança, abertura à mudança, ambição, per-sistência, resiliência, são atitudes que aumentam a competitividade da sua empresa. Aprenda a identificá-las no dia-a-dia através de exemplos de comportamentos que as pessoas possam executar. Comunique-os como desejáveis. Assinale ou sancione negativamente os exemplos contrários. Garanta que o seu comportamento é um exemplo das atitudes desejadas.

 

6. Partilhe informação

 

Qualquer informação que transmita será rapidamente amplificada por toda a empresa. Qualquer silêncio que mantenha será interpretado e distorcido até se tornar ensurdecedor. É preferível influenciar o que os colaboradores pensam com palavras do que com silêncio.

 

Partilhe informação sobre a situação da empresa, mas não apresente dados em bruto. Mostre como os interpreta e integra na estratégia. Faça o trabalho de casa na preparação da comunicação. Depois envolva os colaboradores na geração de soluções. Pode ser que se surpreenda positivamente.

 

7. Utilize estrategicamente os recursos ex-cedentários

 

Quando os momentos de crise libertam tempo dos colaboradores, não permita que eles baixem o nível de ocupação. Delegue tarefas de desenvolvimento, inovação, melhoria contínua, formação, reorganização, revisão de processos, aprendizagem e partilha de conhecimentos.

 

O tempo é um recurso escasso. Utilize-o para gerar valor para a empresa. Este é o momento de retirar da gaveta os projectos que estavam a ganhar bolor por falta de tempo.

 

8. Mantenha-se optimista realista

 

A sua atitude contagia a equipa. O que vão pensar os seus colaboradores se o virem de cabeça baixa, a lamentar a sorte e sem esperança no futuro? Estar eufórico em momentos de crise é pouco adequado, mas desabafar as preocupações com os colaboradores é pouco inteligente porque precisa que eles confiem no futuro para se comprometerem com a implementação da estratégia.

 

9. Reforce as competências de liderança

 

Num mercado favorável, qualquer chefe parece um bom gestor de pessoas porque os resultados aparecem. Mesmo apesar das más práticas de gestão que se possa ter. Em momentos de crise temos de fazer mais e melhor com as equipas que temos.

 

Os processos de gestão de pessoas são a coluna vertebral da execução da estratégia da empresa. Apesar disso, a maioria das vezes são deixados à mercê do empirismo de cada chefia, por desconhecimento de que existem processos sistematizados que garantem resultados a quem os implementa.

 

Garanta que as chefias intermédias da sua empresa sabem como comprometer os colaboradores com a execução da estratégia, diagnosticar as necessidades de desenvolvimento deles, gerir competências e alinhar atitudes da equipa com a cultura desejada. As acções fundamentais de gestão de pessoas.

 

10. Implemente uma gestão de topo em equipa

 

Quando os recursos não chegam para tudo é preciso encontrar formas inovadoras de geri-los. Os recursos são da empresa, não do departamento X ou Y. Há muita ineficiência numa gestão feita de forma estanque, departamento a departamento.

 

Em situações de complexidade a gestão das empresas deve ser feita em equipa. Precisamos das contribuições de pessoas com competências e pontos de vista diferentes para definir uma boa estratégia, porque quando há só uma opinião a probabilidade de erro é muito grande.

 

Ao contrário do que se pensa, o Director Geral ou CEO não abdica do seu poder ao fomentar uma gestão em equipa. Aumenta a qualidade, eficácia e eficiência das decisões tomadas, bem como a responsabilidade partilhada e o empenhamento dos membros da direcção.

 

11. Peça ajuda

 

Estudos demonstram que os líderes de topo altamente eficazes são objectivos na auto-avaliação. Conhecem os seus pontos fortes e fracos, assumem-nos e rodeiam-se das pessoas que os podem ajudar a ser melhores.

 

Aconselhe-se com amigos, colegas, técnicos, especialistas, académicos, consultores. Explicite os seus critérios de decisão, ouça atentamente e inclua o máximo de informação na sua tomada de decisão.

 

12. Aprenda

 

Mesmo que tenha cometido erros grosseiros na gestão de pessoas, a crise dá-lhe uma oportunidade para recomeçar, corrigindo-os. Aprenda com a consequência das suas decisões e garanta que os seus próximos erros são diferentes dos anteriores.

 

Este artigo foi escrito e publicado originalmente neste blogue a 28 de Fevereiro de 2009.

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