6 Janeiro, 2004
Posted in Imprensa
10 Janeiro, 2010 Ricardo Vargas

Carpaccio de elefante

In Executive Digest

O início do ano é pródigo em resoluções. Enchemos a boca de filhoses de abóbora e dizemos: “É este ano que vou perder os quilos a mais e ficar em forma.” “Este ano vou voltar a estudar para terminar o curso que comecei.” “Este ano vou ter mais tempo para a família.”

 

 

 

Passada a euforia das festas, a realidade encarrega-se de nos mostrar que além desse nobre objectivo a que nos propusemos temos uma lista interminável de coisas para fazer em cada dia, pelo que não dá muito jeito ir ao ginásio hoje, ou começar a estudar hoje, ou fazer o esforço de chegar mais cedo a casa hoje.

 

Mas como entre hoje e o fim do ano que agora começa há 360 dias, não vale a pena desesperar. Há muito tempo para começar. “Talvez depois do Carnaval. Até lá há que pôr o ano em ordem, depois tudo se torna mais simples.” Só que quando o Carnaval chega limitamo-nos a colocar outro prazo, porque a lista diária de afazeres não encolheu, pelo contrário.

 

A verdade é que nunca dá jeito começar a fazer coisas que são decididas por nós. É sempre mais fácil dar prioridade ao que tem de ser feito porque outras pessoas nos pedem ou exigem. Elas próprias se encarregam de nos lembrar as consequências de não realizar a tarefa no prazo e em condições.

 

E que consequências tem não ir ao ginásio hoje? Nenhumas. Pelo menos no imediato. Como a única pessoa que poderia recriminar-me sou eu próprio, é fácil fazer um acordo com ela para deixar deslizar o objectivo mais um dia de cada vez.

 

Até que no início do ano seguinte dizemos: “É este ano que vou mesmo perder os quilos a mais e ficar em forma.” “Este ano vou mesmo voltar a estudar para terminar o curso que comecei.” “Este ano vou mesmo ter mais tempo para a família.” Vendo pelo lado positivo, isto prova que basta acrescentar “mesmo” para que os nossos objectivos se mantenham actuais, à medida que nós passamos de validade. O que só prova que são “mesmo” bons.

 

Há uma classe de tarefas que são tão grandes que os progressos que fazemos nelas são difíceis de ver. Um curso, recuperar a forma, equilibrar a vida profissional com a privada, aprender uma língua, não são coisas que fiquem feitas num momento. Exigem esforço continuado ao longo do tempo durante o qual poucos resultados temos para nos orgulhar e motivar. Estas tarefas podem tornar-se opressivas só de olhar para a sua dimensão. São as tarefas elefante.

 

Quando olhamos para o elefante à distância parece pequeno, por isso o subestimamos. Um ano parece um prazo enorme para realizar o que quer que seja. Mas, se não agirmos consistentemente, no fim do prazo o elefante estará inteiro à nossa frente na sua enormidade, impossível de digerir.

 

Comer um elefante inteiro é possível. Basta cortá- lo em fatias e dividi-las pelos dias do prazo que temos disponível. Quanto maior o prazo, mais finas as fatias. Daí a importância de dividir já o seu objectivo em todas as tarefas que precisa de realizar para o atingir e começar o quanto antes a cumpri-las uma a uma. Se o fizer com persistência pode ser que este ano aquele projecto que entra e sai da gaveta e se arrasta indeciso pela sua consciência apareça quase feito lá para Dezembro.

 

Uma fatia fininha pode parecer pouco, mas o elefante é finito e chega o dia em que o carpaccio acaba por terminá-lo. A alternativa é conhecida e tem os resultados do costume, porque não fazer deste ano o ano do carpaccio de elefante?

 

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