8 Outubro, 2020
Posted in Imprensa
16 Janeiro, 2011 Ricardo Vargas

A imortalidade, finalmente

In Executive Digest

A Anne morreu há três anos. Teve um cancro nos pulmões, certamente causado pelos três maços de cigarros que fumava por dia. Ela discordaria agressivamente desta minha última afirmação se a pudesse ouvir. Como qualquer outro dependente de uma substância química, diria que uma associação não prova causalidade. “O cancro é provocado por fragilidades genéticas que ou se tem ou não se tem. O resto não está provado.” – ouço-a dizer na minha cabeça enquanto galopava para a morte

 

Mas encontro a Anne quase todos os dias. Sempre que entro no Linkedin ela está lá meio a sorrir na fotografia na minha lista de contactos. Já não actualiza informação sobre o seu perfil há algum tempo, mas nem isso a distingue dos vivos. Há muita gente que ainda respira mas que deixou de postar informação há mais tempo que a Anne. É verdade que é curto, mas algumas pequenas coisas não deixaremos de lembrar sobre ela.

 

 

 

 

Já no caso do Franco, que morreu há dois anos, os memoriais que a família colocou no Youtube fizeram pela sua memória o que ele não faria em vida. Sendo uma pessoa pouco dada às novas tecnologias, não tinha conta no Linkedin nem no Facebook. Mas agora dispõe de alguns vídeos sobre as suas realizações. Prefiro lembrá-lo pelas discussões de trabalho que tínhamos, pelo que aprendi com ele, pela forma como iniciámos e superámos as nossas desavenças, pela qualidade do trabalho que fizemos juntos em projectos. Mas também é certo que os vídeos o mostram como ele era: exuberante, elegante e inteligente.

 

Com o avanço da medicina, começámos a distinguir os tipos de morte. A morte clínica, que corresponde à paragem do coração, foi o critério de óbito até que entendemos a morte cerebral e a morte biológica dos diferentes órgãos. Ninguém está oficialmente morto enquanto a máquina estiver ligada.

 

Mas agora já não morremos quando alguém desliga a máquina. Partes de nós continuam vivas, a comunicar e influenciar os outros. O que escrevemos fica em murais, clips, posts, comments, tweets, visíveis para o universo. A morte perdeu a batalha contra a Web e as redes sociais: num dado momento é impossível distinguir um vivo de um morto no mundo virtual. Se estamos lá, estamos vivos. Se não estamos, não existimos.

 

O que levanta questões novas: se o próprio não dispuser em testamento, pode a sua memória ser apagada por outrem? Além dos bens materiais, herdamos também direitos sobre a memória dos nossos antepassados? E se por respeito ou pudor não apagarmos o que os nossos falecidos gostariam que fosse efectivamente apagado?

 

Dada a leveza e espontaneidade da comunicação online, ninguém posta um texto como se fosse o último, embora um dia se engane. Por isso, é natural que muitos de nós deixem para trás informação que preferiam não deixar se pudessem voltar atrás.

 

No futuro incluiremos o espólio online nas nossas disposições terminais. Junto com a escolha entre ser enterrado ou cremado, o tipo de cerimónia religiosa ou laica, passaremos também a definir o que fazer com os nossos perfis, websites, blogs e posts, e deixaremos em local seguro uma lista de usernames e passwords para ser aberta em circunstâncias excepcionais. Isto é, dado que a imortalidade é um efeito secundário da Web e das redes sociais, no futuro passaremos a decidir se queremos continuar vivos para além da morte biológica ou não. Pelo menos enquanto os servidores estiverem em uptime e as empresas que detêm as redes sociais deixarem.

 

Ninguém está morto enquanto o seu blog estiver online.

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